domingo, 19 de agosto de 2012

Despertar.

"A solidão de quem desperta

A solidão que se sente quando os olhos se abrem para o que se esconde por detrás do mundo é uma condição natural da pessoa desperta. Percebe-se que não se pertence mais àquele mundo de outrora que persiste em permanecer adoentado, assim como a pessoa fora também.

O mundo é um grande hospício e você fazia parte dos adoentados. Quando despertou, percebeu que não estava 
mais doente, todavia ainda preso ao hospício do mundo, cercado por tantas pessoas vivendo uma ilusão coletiva. Nasceu então o sentimento de se estar vivendo num aquário.

A princípio o corpo é tomado de uma empolgação abrasadora e surge a vontade de dizer a todos os loucos do hospício que o mundo não é aquilo, que há mais coisas lá fora, que estão controlando a todos, que os personagens que representam não são verdadeiros, que cada um é mais do que aparenta ser... Mas ninguém lhe dá ouvidos.

Percebendo então que os esforços de acordá-los para a realidade são inúteis, a tristeza o acomete. A solidão então lhe abraça de tal forma que beira ao desespero. Você não pertence mais àquele hospício, porém não pode sair de lá sozinho. Para escapar há apenas duas opções: morto ou através da união de todos os internos. E ao pensar nisso, você se irrita como fazia antes de acordar. Irrita-se, pois não quer mais viver neste lugar de loucos, mas depende destes para sair.

Os loucos passaram a olhá-lo de maneira estranha, pois você se deslocou do mundo deles, parecendo diferente, esquisito, louco (a loucura do louco é a sanidade alheia). Mas ao vê-lo com tanta irritação, logo percebem que você ainda é o mesmo, ainda pertence ao grupo, ainda é refém de si próprio.

E você, em toda a sua angústia, se pergunta:

- Como posso continuar vivendo neste lugar, cercado dessa gente toda que não sabe o que está acontecendo? Como posso suportar?

Você tinha vozes na sua cabeça antigamente. Vozes que o instigavam, o irritavam, o assustavam, o castigavam e o insultavam. Ao despertar, você abriu um novo canal para uma voz que não vem da cabeça, mas do coração. Essa voz é o que você realmente é, e ela sempre lhe diz o que é mais correto a se fazer. Todavia, por ficar ainda querendo respostas prontas, você nunca conseguiu ouvi-la.

Se prestasse atenção ela diria algo mais ou menos assim:

- Não tenha mais medo. Você conhece a verdade, então por que ainda teme? Por que ainda sente raiva e frustração? Por que ainda mantém os velhos vícios mentais? Agora que você sabe uma parte da verdade é tempo de pôr em prática a sua sanidade real, a sua consciência verdadeira.

Os loucos são seus irmãos, iguais a você, por isso não os despreze, não os julgue, não os odeie. Assim como ocorria com você, eles não sabem o que fazem. Estão adoentados, portanto não aprendem de maneira direta. Eles aprendem através do exemplo, e se vier junto de atitudes amorosas, aprenderão ainda mais rápido. E é isso que você deve fazer: servir de exemplo.

Não queira abraçar todos ao mesmo tempo, você é somente um. Faça pequenas coisas e não se preocupe com mais nada senão consigo mesmo. Você despertou, mas ainda mantém vários resquícios da doença de outrora, e isso sim precisa ser trabalhado. Concentre-se nisso, pois é o que mais importa. Uma vez melhorando a si mesmo, aos poucos os outros irão espelhar-se, pois a verdade sempre faz sentido, não importa o nível de loucura.

Então, ouvindo essa voz que vem do seu âmago, você compreenderá que não precisa lutar, não precisa forçar, não precisa se desesperar. Você está cercado de adoentados, portanto aprenda a conviver com eles de forma amorosa e desprendida. Não precisa fingir nada, mas também não precisa impor nada.

Apenas seja o melhor que puder ser e compartilhe isso com as outras pessoas."

Cartas de Amor - Maria Bethânia




Todas as cartas de amor são Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras, Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso Cartas de amor Ridículas.
Afinal, só as criaturas que nunca escreveram Cartas de amor,
É que são Ridículas.

Porém não tive coragem de abrir a mensagem
Porque, na incerteza, eu meditava
Dizia: "será de alegria, será de tristeza?"
Quanta verdade tristonha
Ou mentira risonha uma carta nos traz
E assim pensando, rasguei sua carta e queimei
Para não sofrer mais

Quanto a mim o amor passou
Eu só lhe peço que não faça como gente vulgar
E não me volte a cara quando passa por si
Nem tenha de mim uma recordação em que entre o rancor
Fiquemos um perante o outro
Como dois conhecidos desde a infância
Que se amaram um pouco quando meninos
Embora na vida adulta sigam outras afeições
Conserva-nos, caminho da alma, a memória de seu amor antigo e inútil

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

É uma arte, mas é preciso cuidado.

Outro dia eu tive um sonho. Daqueles que altera nossa rotina para melhor. Estava dormindo e uma voz em meio há uma grama verde e pássaros me disse:

- AME, AME, AME.

Quando dei por mim estava debruçado sobre a janela do meu quarto olhando para as estrelas. Nesse momento tive certeza: algo tinha sido alterado.

Passei a ver brotar em mim o desejo da esperança. Forças começaram a me intimidar. Energias começaram a me seduzir. Já sei onde piso, já sei onde ir. Já distingo o que quero do que não preciso.  Minha crise dos 25 foi aos 23. Um passo a frente!

O bom de sentir-se mais velho? É o prazer de saber das coisas. Lido melhor o que sinto e com o meu 6º sentido. Sinto a presença da paz de Deus (?) ao meu redor. E quando meu 6º sentido “apita loucamente” e eu não entendo, sei que mais alguns passos a frente tudo se desenhará para meu entendimento e compreensão.
Meus caminhos me levarão para onde quero estar. Minha sorte se renova a cada dia e sei que preciso de tempo para mim. Imponho-me diante desse mundo monstruoso e, mesmo em meio as pedras, sei que pode ser proveitoso viver. E vivo e vivo e vivo. Vivo do meu jeito. Daquele jeito que a linha mestra da vida é o sentir e sinto e sinto e sinto.

Amo, vivo e sinto.

A noite, os deuses e o vento batendo nas árvores, me inspiram e me despertam: estou vivo e posso sentir mais do que nunca!

terça-feira, 17 de abril de 2012

Num momento em que não se pode achar que nada mais vale a pena

Vai chegar um dia em que não vamos mais ter olhos tão famintos de vida para acordar todas as manhãs.

Chegará uma manhã de inverno e não conseguiremos mais levantar da cama pelo medo do frio e de tudo mais que virá depois dele.
Os finais de tarde, com o Sol se pondo no horizonte, será a sua morte, porque já terão se ido todas as suas forças para apreciar o que é Belo.
No seu quarto começarão acumular-se plásticos, resto de cigarro e ratos. Todos ao redor do seu colchão velho jogado no chão, seu local de descanso e sossego.
Acreditarás em Deus, mitos, seitas que proferem a paz. Todas dizendo que o mundo é lindo se você acreditar que ele é lindo. Desisti. Não consigo acreditar nessas coisas, confio nelas por um tempo, mas depois me canso, me irrito, jogo-as na parede.
Se a vida rasga nessas terras onde brotam os depressores, outros solos me acolherão.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Um Caio F. para encerrar esse domingo.

Uma conclusão em um domingo que, ao que tudo indica, é o primeiro da fase neodecadente que se inicia em minha vida.
"preciso sim, preciso tanto de alguém que aceite tanto meus sonos demorados quanto minhas insônias insuportáveis. tanto meu ciclo ascético Francisco de Assis quanto meu ciclo etílico bukovskiano. que me desperte com um beijo, abra a janela para o sol ou a penumbra. tanto faz, e sem dizer nada me diga o tempo inteiro alguma coisa como eu sou o outro ser ao conjunto teu, mas não sou tu, e quero adoçar tua vida. preciso do teu beijo de mel na minha boca de areia seca, preciso da tua mão de seda no couro da minha mão crispada de solidão. preciso dessa emoção que os antigos chamavam de amor, quando sexo não era morte e as pessoas não tinham medo disso que fazia a gente dissolver o próprio ego no ego do outro e misturar coxas e espíritos no fundo do outro-você, outro-espelho, outro-igual-sedento-de-não-solidão, bicho carente, tigre e lótus"
Caio F. Abreu

sábado, 21 de janeiro de 2012

Sábado.

Sábado. 17h46. Fones no ouvido. Sensação de ausência e vontade de fumar. O horóscopo previa para o dia de hoje “um encontro com alguém especial, pois sua Vênus transita não sei aonde”. Palhaçada! Escuto Mozart e sinto como se houvesse uma tempestade acontecendo lá fora e outra aqui dentro, ambas me causam uma forte vontade de gritar timidamente as coisas de dentro e de fora. Deveria haver uma ruptura aqui, mas de que? Deveria haver algo aqui, mas o que? São perguntas que eu não sei responder. Mas estou certo que este sábado está quente, está chato, as coisas estão ruins por todo lugar que se olhe, não há o que admirar, não há o que cumprimentar e nem o que amar. Há uma tempestade corrosiva a tomar conta das almas e das paredes. Não sei de onde vem e não sei sobre seu fim.
É um sábado daqueles feitos pra gente misturar muita angústia com muito café. Pensei em cortar o meu cabelo ou aparar os pêlos dos meus gatos, romper com a ordem natural das coisas mesmo que fosse apenas aos meus cabelos ou aos pêlos deles... Em seguida acreditei que caminhar me ajudaria então abri a janela para ver como estavam as coisas lá fora e a tal tempestade que eu apenas sentia existir estava nítida em minha frente. Muros, árvores, pessoas, gramíneas... Tudo o que eu via estava derretendo e se tornando um líquido acinzentado e corrosivo e quanto mais derretia mais corroía o que encontrava pelo caminho. Ruas, prédios tudo se transformava em lama vulcânica acinzentada e vinha em minha direção como se quisesse destruir o pouco que eu era naquela tarde maldita. Tudo aquilo me assustou, me intimidou imensamente e fechei a janela para nunca mais abri-la novamente.
Pensei se santo daime ou algumas gramas de pó poderiam resolver alguma coisa... Nada! Não há cura para essa lama acinzentada e corrosiva, não há! Não há porque não se sabe a procedência ou as causas. Poderia se pensar que a própria vida tivesse se cansado de tudo e se transformado na tal lama, mas estava claro que ali não havia vida há anos, pois não havia sonhos e nem esperança, requisitos mínimos para que a vida possa pulsar em qualquer fragmento atômico escondido no pé de uma formiga ou de uma joaninha qualquer.
E dentro de toda essa loucura de lama, cinza, átomos e vulcões duas palavrinhas não saíam da minha cabeça. Palavras que, se unidas, atormentam e mutilam qualquer existência: “E” e “SE”. Não há no alfabeto desses dias quentes de sábado nada capaz de me atormentar mais que essas duas palavras juntas. São pequenas e parecem bobas, indefesas, solitárias e sem muita força – aparente. E se... E se! E se? E se... Tantas coisas já mortas passaram por E SE hoje. Incontáveis dias, incontáveis desoportunidades, incontáveis pessoas, incontáveis diálogos, incontáveis cores, incontáveis, incontáveis, incontáveis.
Tormento!
Volto meu pensamento para o instante presente. Lacrimosa Dies Illa parece criar bolhas de castigo no ar do quarto abafado e com cheiro de cigarros vencidos. Deixei-o escuro, aliás, deixei tudo a minha volta no escuro desde a hora em que levantei da cama. Fiz questão de não saber onde eu acabava e nem onde começava dentro dos espaços dessa jaula. E foi nisso que me movimentei - verdade é que o calor no escuro, se misturado com uma parcela que seja de angústia, é capaz de matar uma pessoa fragilizada de frio... Estou forte em meus medos. Estou sim. E agora, assim de súbito no caos, olhei para um dos cantos escuros... Uma bíblia que ganhei de aniversário de minha mãe. Por onde andaria Deus nessas horas? Farto estou de loucura e perguntas. Quero a claridade.

Janeiro/2012

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Um Pessoa para embelezar a vida


Eu não possuo o meu corpo - como posso eu possuir com ele? Eu não possuo a minha alma - como posso possuir com ela? Não compreendo o meu espírito - como através dele compreender?
Não possuímos nem o corpo nem uma verdade - nem sequer uma ilusão. Somos fantasmas de mentiras, sombras de ilusões, e a nossa vida é oca por fora e por dentro.
Conhece alguém as fronteiras à sua alma, para que possa dizer - eu sou eu?
Mas sei que o que eu sinto, sinto-o eu.
Quando outrem possui esse corpo, possui nele o mesmo que eu? Não. Possui outra sensação.
Possuímos nós alguma coisa? Se nós não sabemos o que somos, como sabemos nós o que possuímos?
PESSOA, Fernando, "O Livro do Desassossego".

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Sem fantasmas

Sentiu-se sozinho. Sempre soube sobre seu estado de solidão. Era um estado de espírito consciente. Contudo, contava com seus fantasmas costumeiros. Porém naquela noite sabia mais do que nunca que estava sozinho. 
Ouvia latejos do silêncio pularem das paredes de madeira que o cercavam acertarem em cheio suas extremidades e sua alma. Seus fantasmas o haviam abandonado. 
Pensou se poderia mudar o frio que o envolvia: telefone, email, cartas, filmes. Não conseguia alcançar nada disso para senti-los. Disse para si mesmo:
- Que minh'alma nao durma por completo. Teve, pela primeira vez em vida, o temor da morte. Buscou ressuscitar o pouco que notava e acreditava ainda existir. 
Em vão. Tudo em vão.
Amou muitas vezes.Ouvira, ao longo dos anos, os melhores conselhos dos melhores amigos. 
"Ame sempre e não perca a esperança de ser feliz", dizia-lhe um amigo.
"Não se permita desacreditar num mundo de paz e plenitude", ensinava-lhe outro.
Acreditou no bem, na paz, na justiça. Sabia que seu ser era feito para o bem, para acreditar na vida com entusiasmo e esperança. Doou-se aos sentimentos nobres de coração.
Escreveu cartas de amor e amou muito. Amou seus amigos, seus irmãos, a vida, os fins de tarde, os inícios dos dias, o Sol. Foi um ser de luz que transcendeu.
Arrancaram-lhe pedaços.
Desafiaram sua fé em Deus.
Derrubaram-no ao chão.
Levantou.
Mas levantou tantas vezes...
Voltou a acreditar.
Voltou a crer nos melhores conselhos.
O tempo começou a diminuir os dias e encurtou o brilho do Sol.
Jogou-se sobre o bruto concreto dos dias cinzas e passageiros.
A míngua começou dilacerar-lhe.
Fechou-se.
Provou da realidade feia do mundo.
E o que restou-lhe de tudo isso?
O choro inconformado transfigurado na magreza, nas profundas olheiras e no amarelo pálido que lhe tingia toda a pele.
Estava só e sentia medo.
Medo de tudo.
Medo de todos.
Medo do que a vida tinha lhe mostrado e lhe arrebentado.
Estava só.
Tinham-lhe duramente cortado os galhos verdes.
Sombrio e sem fantasmas deitou-se na cama.
E o barulho da queda nao o despertou.
Atritou contra o colchão apodrecido.
Sentiu o apodrecimento ao seu redor e 
percebeu que as lágrimas também já lhe eram companheiras.
Pôs-se ao nada.
E sozinho permaneceu.

 







segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Que não me falte o delicado essencial

Há menos de 48h de completar 24 anos estou em meu quarto e sinto. Sinto tanto como me é de costume com o acréscimo de que excepcionalmente hoje decidi deixar-me sentir, mas sem limites, regras e temores. Há menos de uma hora sonhei com uma antiga colega do colegial que vi passar na rua 3h mais cedo. Acenei para ela.
Dos meus sonhos fui para tantos lugares, de cima desse colchão barato com cinza de cigarro e vômito de absinto, dos tempos em que fumava e bebia, senti em vidas que são apenas minhas coisas das quais não quero esquecer jamais e menos ainda contá-las. Penso que nesses dias em que me sinto sentindo de verdade me fecho e não quero que saibam nada sobre mim. Não conto. Não saio de casa. Fecho meus olhos e vou para esse oceano brilhante e azul que existe dentro de mim. O sono durou pouco mas estive em muitos lugares e quando acordei decidi continuar a navegar nesse oceano do espírito que somos todos nós em essência.
Incensos, rituais xamânicos, danças difusas e longínquas dentro do que sinto. O Sebastian não deixou barato. Estamos tão ligados que ele dormiu comigo e quando acordamos sentou-se na janela e ficou admirando a Lua cheia e os grunhidos da noite. Ele é tão perceptivo que ás vezes até me assusto. Deve estar há anos luz de muitos outros seres. Abracei-o tantas vezes na janela que já perdi as contas. Estou feliz. Daquela felicidade que preciso prender a respiração para não chorar sempre que encontro um conhecido na rua e dou-lhe um abraço. 
Estou me preparando para daqui a 48h quando estarei na casa de minha mãe com as pessoas que mais amo e que estão mais fáceis de serem abraçadas daqui a 48h.
Meditei depois de acordar. E ao entrar no meu oceano interior percebi que ele se transfigurava no mundo, nesse mar de sentidos e verdes que é o mundo de todos nós. Estive em mim mas estive em todos. Estive em tudo. Senti tudo. O bem, a paz, o amor, a misericórdia, o perdão e a gratidão estiveram comigo. Agarro-me no que me fortalece, faço minha essência – a que julgo ter – progredir. 
Sou forte e posso ajudar. 
Sou sozinho mas estou em tudo o que amo. E amo tudo o que posso sentir e tocar. Profundo é tudo aquilo que sentimos e tocamos com o oceano que somos.
Transbordar nisso é exercer o poder de sentir que há um Deus ou que eles são muitos e estão todos aqui dentro, dentro de mim e de tudo. Planar. Voar, subir, adentrar. São muitas as portas do bem e para elas é bom rumar sempre que pudermos.
A noite, o verde, os assovios desvairados. Os deuses, o amor, o azul, a consciência de um estado de espírito maior que tudo o que vemos. Milhões de seres, formas e ventos. Tudo aqui lindamente guardadinho. Como posso eu não tocar no que sou?
Esqueço do que nao sou mas sei que sou tudo.
Estabeleço com todas essas coisas uma junção com minha alma, meus amigos, meus amores e essa coisa incrível que chamamos de vida, de Ser.
Ser para Ser. Ser para Ser mais, Ser para se permitir nas profundezas da alma do Ser.
Uma luz sobe acima de minha cabeça. Estou acordado. Posso vê-la. Me traz ainda mais paz interior e multiplica minha fé nesse dom que é o Sentir com o espírito. Algo lindo se manisfesta aqui. Sai do que sou, do meu sentir. Há, também, um estranho, tímido e bonito calor em tudo o que me cerca. É bonito e se mostra como uma extensão do que sonhei, vi e vivi.
Ovelhas, pássaros, pessoas. Tudo está aqui comigo e com essa vastidão de luz que todos trazemos dentro do que somos.
Senti e sinto.
Não quero descrever nada.
Quero apenas sentir.
Que não me falte o delicado essencial. Que não me falte o eu.
Começa ventar e já não sei mais onde estão os limites do meu eu e nem dessas partículas e átomos que são o mundo e as coisas. Estou nisso e isso está em mim.
Sou tudo.
Sou completo.
Pelo sentir eu sou.

sábado, 29 de outubro de 2011

Fragmento 6 in Livro do Desassossego

6.
"Escrevo, triste, no meu quarto quieto, sozinho como sempre tenho sido, sozinho como sempre serei. E penso se a minha voz, aparentemente tão pouca coisa, não encarna a substância de milhares de vozes, a fome de dizerem-se de milhares de vidas, a paciência de milhões de almas submissas como a minha ao destino quotidiano, ao sonho inútil, à esperança sem vestígios. Nestes momentos meu coração pulsa mais alto por minha consciência dele. Vivo mais porque vivo maior."

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Viver maior.
Sábado a noite em casa
e como se alguma coisa estivesse presa em minha garganta ou presa em minha vida.
Seja lá o que for isso está querendo sair, saltar para fora do que sou.
Ou do que penso que sou.
Não sei quem sou,
ou melhor, às vezes até o sei,
e sei pelas coisas que estão presas em mim
e querendo explodir,
seguro-as.
São a única forma de me conhecer.
Engana-se quem pensa que isso é pouco.
Restos, fiapos, gritos abafados,
Dores guardadas,
Sentimentos que querem saltar para fora.
São eles que nos fazem sentir gente,
sentir vida.
Não por eles, pelos sentimentos tristes,
jamais saberia sobre qualquer parte do que sou.
Ou, possivelmente, do que penso que sou.


sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Derrocado

E sentado aqui, no meio do nada, subo meus olhos para cima: vejo o céu azul e imenso. Analiso ele debaixo, ele me olha de cima.
Sinto o seu cheiro em cada movimento que minha mente prevê para os próximos segundos - principio a sentir a nossa febre... mas esta desapareceu.
Não estou sozinho. Tenho muito de você em todo o meu Ser e me questiono em muitos instantes qual é a minha dimensão exata. Não sei onde começo e nem onde termino.
Você em mim. 
Sou mais que eu era e não sei minhas medidas.
Perdi-as como se perde objetos.
Estou tonto. A claridade desse azul me atormenta.
Levantar do chão requer a mínima noção do espaço que ocupo.
Não sei minhas medidas.
E a cada dia se torna mais impossível o "levantar-me".
Não existem apoios seguros.
Quero tocar o céu. Quero que esse azul, mesmo angustiante, possa me ajudar.
Não o alcanço, estou longe.
Longe de todos.
Você nao chegará. Não me levantarei.
Que caminho é esse?
Não é um caminho, penso.
És do mundo. Sou seu.
Não estás comigo.
Não tenho nada.
Mas conto ainda com o azul, mas imagino que logo ele desaparecerá dando lugar a escuridão da noite.
Temo pelo que possa acontecer. Quero ter a sorte de contar com as estrelas.
Me contaram outro dia que elas aparecem no céu todas as noites.
Sou temeroso. Não conheço a noite, apenas o que me contaram sobre ela.
Há, portanto, em mim, a esperança de poder contar com as estrelas.
Aqui, espero a noite.
Imóvel debaixo do azul.
Imóvel no chão.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Para você...

Deixo você pro seu drink esquentar
Meio álcool, meio água, meio gelo que já derreteu
Deixo a canção pro cigarro engasgar
E a minha lembrança estar
Deixo você pra quem quiser ser teu
Pra amantes desbotados que não ardem como eu
Deixo tua cama quente pro teu sexo triste
Pra que nunca esqueças
O que de mim restou
Vestido pelo chão
Enquanto te embriagas entre uma ilusão e outra
Mas sei quando vem esse sol despertar tua manhã ao meio dia
Tua ressaca tem o gosto da minha boca



Ressaca
Filipe Catto

Doce Caio - Quase novembro, a ventania de primavera levando para longe os últimos maus espíritos do inverno

Ter que atravessar os gelos de julho para chegar despedaçado em agosto e, a partir de setembro, tentar reunir os cacos outra vez. Porque guardar roupa velha dentro da gaveta é como ocupar o coração com alguém que não lhe serve.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

13 set 2011

Hoje é um dia especial. Meu grande amor está de aniversário, escrevi-lhe uma carta noturna para lembrar-lhe o quanto é especial na minha vida e, assim que o dia nasceu, peguei meu iPAD e fui para a janela. Queria fotografar o dia surgindo no horizonte e depois mandar-lhe para que pudesse perceber o presente que os Céus estavam a enviar-lhe.
O Sebastian, COMO SEMPRE se meteu no meio... 
E não é que a foto ficou legal? Não queria postar porque não está TÃO boa assim e eu como fotógrafo sempre deixei muito a desejar - sinal de que, pelo menos, sei o que é uma foto boa.
Enfim...



Malditas tardes de verão


Não tenho muitas lembranças alegres da minha adolescência, mas certamente, nessa fase da minha vida, não houve nada mais triste que os fins de tarde no verão.


Eu nao sei explicar. Contudo, lembro que eu sentava na frente da minha casa e ali permanecia até o anoitecer olhando para a rua. Era uma espécie de ritual: chegava da escola as 17h15, largava meus livros, comia alguma coisa, vestia uma roupa "fresca" - ou nao tão fresca assim porque nessa época eu nao usava camisas com mangas curtas - e me sentava na calçada que rodeava toda a frente da minha casa e, descalço, colocava os pés na grama. Dali eu olhava para a rua cheia de pessoas felizes e entusiasmadas andando sempre em grupos e com ares de que estavam fazendo algo que as deixava iluminadas e, ao mesmo tempo, me entristecia. Eram cheias de si, cheias de vontade de viver. Riam, gritavam, estavam de mãos dadas, eram amigas, eram namorados, eram irmãos, eram felizes. Eu pensava no meu futuro, eu pensava se algum dia sairia na rua sem camiseta, de mãos dadas, rindo do nada e despreocupado com o Sol ou a poeira da rua que era tão imensa quanto os sorrisos estampados naquelas caras. Eu pensava que, talvez, por algum motivo, eu nao tinha sido escolhido por Deus para estar ali em meio a eles e que, provavelmente, jamais conseguiria me juntar a essa multidão que por vezes pensei que existia apenas por um intuito: me fazer ver o quanto eu era triste.


Por outro lado, o frio das lajotas da calçada na minhas pernas e as cócegas da grama nos meus pés me causavam uma leve e boa sensação de aconchego e acolhimento. Era, de fato, a única coisa realmente boa de sentir naqueles dias; a única coisa que valia a pena em meio àquele calor tropical poeirento e bufante e àquelas pessoas imensamente felizes, suadas e diferentes de qualquer coisa que eu poderia pensar em ser.


Agora, tanto tempo depois, eu sinto medo. Sempre que setembro chega na 2ª quinzena e o calor começa a fritar as pessoas, eu peço a Deus que o Sol nao me entristeça como naquelas tardes, porque aqui onde estou nao encontro grama e acredito que poderá ser o meu fim se a poeira, as pessoas e o calor se unirem mais uma vez contra a minha solidão.






quinta-feira, 1 de setembro de 2011

O Preço da Honra

As coisas que mais ocorrem na vida e são tidas pelos homens como o supremo bem resumem-se, ao que se pode depreender das suas obras, nestas três: as riquezas, as honras e a concupiscência. Por elas a mente se vê tão distraída que de modo algum poderá pensar em qualquer outro bem. Realmente, no que tange à concupiscência, o espírito fica por ela de tal maneira possuído como se repousasse num bem, tornando-se de todo impossibilitado de pensar em outra coisa; mas, após a sua fruição, segue-se a maior das tristezas, a qual, se não suspende a mente, pelo menos a perturba e a embota. Também procurando as honras e a riqueza, não pouco a mente se distrai, mormente quando são buscadas apenas por si mesmas, porque então serão tidas como o sumo bem. Pela honra, porém, muito mais ainda fica distraída a mente, pois sempre se supõe ser um bem por si e como que o fim último, ao qual tudo se dirige.
Além do mais, nestas últimas coisas não aparece, como na concupiscência, o arrependimento. Pelo contrário, quanto mais qualquer delas se possuir, mais aumentará a alegria e consequentemente sempre mais somos incitados a aumentá-las. Se, porém, nos virmos frustrados alguma vez nessa esperança, surge uma extrema tristeza. Por último, a honra representa um grande impedimento pelo facto de precisarmos, para consegui-la, de adaptar a nossa vida à opinião dos outros, a saber, fugindo do que os homens em geral fogem e buscando o que vulgarmente procuram. 

Baruch Espinoza, in 'Tratado da Correcção do Intelecto'

Igualdade não é Identidade

Combaterei pelo primado do Homem sobre o indivíduo - como do universal sobre o particular. Creio que o culto do universal exalta e liga as riquezas particulares - e funda a única ordem verdadeira, que é a da vida. Uma árvore está em ordem, apesar das raízes que diferem dos ramos. 

Creio que o culto do particular só leva à morte - porque funda a ordem na semelhança. Confunde a unidade do Ser com a identidade das suas partes. E devasta a catedral para alinhar pedras. Combaterei, pois, todo aquele que pretenda impor um costume particular aos outros costumes, um povo aos outros povos, uma raça às outras raças, um pensamento aos outros pensamentos. 

Creio que o primado do Homem fundamenta a única Igualdade e a única Liberdade que têm significado. Creio na Igualdade dos direitos do Homem através de cada indivíduo. E creio que a única liberdade é a da ascensão do homem. Igualdade não é Identidade. A Liberdade não é a exaltação do indivíduo contra o Homem. Combaterei todo aquele que pretenda submeter a um indivíduo - ou a uma massa de indivíduos - a liberdade do Homem.

Creio que a minha civilização denomina «Caridade» o sacrifício consentido ao Homem para que este estabeleça o seu reino. A caridade é dádiva ao Homem, através da mediocridade do indivíduo. É ela que funda o Homem. Combaterei todo aquele que, pretendendo que a minha caridade honre a mediocridade, renegue o Homem e, assim, aprisione o indivíduo numa mediocridade definitiva. 
Combaterei pelo Homem. Contra os seus inimigos. Mas também contra mim mesmo. 

Antoine de Saint-Exupéry, in 'Piloto de Guerra'

O Engano da Bondade - Pablo Neruda

Endureçamos a bondade, amigos. Ela também é bondosa, a cutilada que faz saltar a roedura e os bichos: também é bondosa a chama nas selvas incendiadas para que os arados bondosos fendam a terra. 
Endureçamos a nossa bondade, amigos. Já não há pusilânime de olhos aguados e palavras brandas, já não há cretino de intenção subterrânea e gesto condescendente que não leve a bondade, por vós outorgada, como uma porta fechada a toda a penetração do nosso exame. Reparai que necessitamos que se chamem bons aos de coração recto, e aos não flexíveis e submissos. 
Reparai que a palavra se vai tornando acolhedora das mais vis cumplicidades, e confessai que a bondade das vossas palavras foi sempre - ou quase sempre - mentirosa. Alguma vez temos de deixar de mentir, porque, no fim de contas, só de nós dependemos, e mortificamo-nos constantemente a sós com a nossa falsidade, vivendo assim encerrados em nós próprios entre as paredes da nossa estuta estupidez. 
Os bons serão os que mais depressa se libertarem desta mentira pavorosa e souberem dizer a sua bondade endurecida contra todo aquele que a merecer. Bondade que se move, não com alguém, mas contra alguém. Bondade que não agride nem lambe, mas que desentranha e luta porque é a própria arma da vida. 
E, assim, só se chamarão bons os de coração recto, os não flexíveis, os insubmissos, os melhores. Reinvindicarão a bondade apodrecida por tanta baixeza, serão o braço da vida e os ricos de espírito. E deles, só deles, será o reino da terra. 

in "Nasci para Nascer"